Ela acordou cedo, escovou os dentes, tomou banho e se vestiu. Estava atrasada, se achando gorda e era um dia normal. E foi, até ela se perder completamente. Ela estava no elevador e se perdeu completamente naquele olhar. Que homem tem aquele olhar? Porque ele a olhou assim? Ninguém percebeu aquele olhar? Só ela? Se ela fosse uma daquelas modelos altas e anormalmente perfeitas, ela até poderia achar que ele olhou para ela, mas não. Não. Ele olhou através e parou em algum lugar entre o castanho dos olhos dela e as lembranças borradas pela miopia dos sentimentos de uma mulher que não precisa de médico de olhos, ou precisaria, se ele conseguisse ver alma.
Agora o homem fora embora e ela sabia que nunca mais o veria. Ou talvez ela o tenha simplesmente imaginado ou inventado para si mesma que precisa de alguém que tenha olhos e veja mais que roupas da moda, cabelos escovados, pele hidratada e olhos, para fazê-la pensar no que não estava vendo. Ela não sabia, mas sabia que estava perdida em algum lugar entre o vigésimo andar e o dia em que não casou. Porque ela não casou? Porque seu noivo não estava com ela? Ela não lembrava. Ela tentava encontrar uma resposta, mas não lembrava como ela havia saído do altar e aparecido naquele elevador cheio de gente e perguntas. Então ela lembrou. Lembrou que fugiu e não teve coragem de dizer sim. Hoje faria um ano que ela estaria casada, mas ela não disse nada e se foi.
As portas se abriram, era o térreo e ela tinha chegado ao seu destino. O elevador ficou vazio e ela ficou parada. Presa por muita culpa e muitas dúvidas, mas com uma única certeza, ela não gostava de se perder. E ela estava perdida sem ele. Nesse momento, ela não tinha forças pra procurar nem por ele e nem por respostas. Ela só tinha certeza que queria recuperar o tempo perdido e que havia perdido o único homem que havia se encontrado nela. Então ela saiu do elevador e andou, como quem sabe para onde está indo, mas ela não sabia para onde ir, ela só queria ir para ele. E foi. Como quem perde o medo e encontra a felicidade.